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A Busca pelo Sagrado e seus Paradoxos


A Busca pelo Sagrado e seus Paradoxos


Sermão para o 3º Domingo da Páscoa


Texto bíblico: Atos dos Apóstolos 9:1-19


 


Reverendo Arthur Cavalcante*


 


O texto de Atos dos Apóstolos narra o encontro de Saulo de Tarso com o Jesus Cristo. Tanto tempo servindo a Deus dentro do judaísmo, Saulo não havia encontrado o “objeto” de sua devoção. Saulo era o tipo de pessoa que levava a sério sua tradição religiosa. Confessou o apóstolo em uma carta aos cristãos filipenses: “circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamin, hebreu de Israel; quanto à lei fariseu, quanto ao zelo perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Fl 3: 5-6). Isso revela seu “santo orgulho” na religião de seus pais. Sua formação foi aos pés do Mestre Gamaliel e fora do ambiente palestino. Esse dado ressoaria mais tarde em um extremo apego às tradições judaicas num mundo pagão. Podemos então compreender a razão do alto zelo que tinha para com a sua religião e por isso, não pouparia esforço algum em defendê-la. Os fins poderiam até justificar os meios.


Santo Estevão Martir


Lembremos que Saulo presenciou o apedrejamento do jovem Estevão sendo conivente com sua sentença de morte. Após o martírio do Proto Diácono Estêvão, Saulo tomado por sua devoção ao Sagrado empreende uma perseguição com a autorização dos líderes das sinagogas de Damasco. Em nome de Deus, o judaísmo seria preservado, nem que para isso fosse preciso derramar mais sangue.


Olhando para o passado, buscando primeiramente o exemplo da própria Igreja, vemos que ela incorporou o papel de justiceira para com seus filhos tidos por hereges e em suas mãos estava o poder de separar o joio do trigo. Olhando para o hoje vemos que essa autoridade despótica ainda persiste dentro da Igreja por meio dos inquisidores que se articulam numa versão ecumênica da Congregação para Doutrina da Fé. O que nos reservará o futuro? Seria algo diferente do que temos visto? Precisamos esperar o fato consumado para depois, dos escombros, santificar os “hereges” e assim, apaziguar nossas consciências? O que leva realmente um homem a matar seu semelhante por causa do Sagrado? E aqui não me refiro apenas à morte física, mas também a negação do outro ao direito de ser/existir. O que se passou na mente de Saulo de Tarso? Por detrás de uma possível defesa da sã doutrina podemos ter muitas justificativas: sagradas ou profanas, lúcidas ou insanas, ingênuas ou maquiavélicas. Os planos de Saulo felizmente não se concretizaram.


Conversão de São Paulo


No caminho para Damasco, o Sagrado vai ao encontro do cruzado em sua batalha contra os infiéis. As Escrituras relatam uma teofania que se manifesta diante de Saulo abalando suas convicções. Literalmente no chão ele consegue ouvir uma voz: “[...] por que me persegues?” “Tudo o que se faz aos discípulos por causa do nome de Jesus, é a Jesus que se faz”


Temos conhecimento das atrocidades que a Igreja cometeu para com seus próprios filhos. Como esquecer das declarações dos tribunais eclesiásticos sentenciando de hereges os cristãos que não apoiaram irrestritamente as decisões dos Concílios? “Ter que escolher entre o Sermão da Montanha e o Símbolo de Nicéia, entre o Evangelho e o Dogma” (Clodovis Boff). Como esquecer as inquisições no catolicismo romano, protestantismo ou no anglicanismo, com seus respectivos Autos de Fé? Eles querem justificar o injustificável profanando as Escrituras Sagradas com falsas exegeses e hermenêuticas falaciosas. HáInquisição Protestante aqueles que evocam figuras emblemáticas da Santa Igreja para respaldar a loucura de suas ações. Reputam por divinas as declarações de irmãos que tentavam servir ao Cristo em sua época e contexto, proclamando em uma só voz: Salve Agostinho! Salve Cranmer! Salve Kinsolving! Salve Carey! Isso é idolatria. Que protestantismo raquítico este que temos? Sem densidade teológica, sem sensibilidade pastoral, sem espessura humana, anti-cristo!


A intervenção divina foi transformadora na vida de Saulo. Ele se colocou submisso à voz do além, percebendo verdadeiramente quem era Deus. Humildade foi o primeiro sentimento que fluiu de si. Ele percebeu que não entendia nada do Sagrado e tão pouco podia dominá-lo. Humildade para reconhecer seus próprios erros e tentar repará-los. Deixou-se guiar pela voz que prevaleceu diante da confusão de vozes em sua mente (tradição religiosa/familiar, experiências místicas anteriores, vaidades...).


O encontro de Saulo com o Sagrado veio atingir por completo sua vida, refletindo no seu corpo e mente. Antigos paradigmas foram derrubados e novos foram erguidos. Saulo é abençoado, ironicamente, por alguém que potencialmente poderia ser sua próxima vítima. A manifestação do Sagrado se deu na fantástica teofonia no caminho de Damasco, através de um homem comum. Ananias foi naquele momento um instrumento de bênção na vida de Saulo que estava esgotado física e psiquicamente. Ananias foi solidário ao se colocar como “irmão” dando-lhe abrigo e comida (v. 17 e 19) e também cuidado pastoral, ao recebê-lo com o batismo (v.18). Assim, Saulo estava dando um passo importante em direção ao Sagrado, abrindo-se para ser um instrumento nas mãos de Deus.


A decisão de buscar o Sagrado é um ato de fé e coragem. Devemos procurar com muito esmero o Reino de Deus, tal como é descrito por Jesus na Parábola da Pérola (Mt 13, 45-46). Saulo considerava os seguidores do Mestre da Galiléia um grande perigo para o judaísmo. O excesso de zelo em nome de Deus por parte de Saulo trouxe conseqüências desastrosas. Antes de tomar qualquer caminho ao encontro com o Sagrado nunca é demais usar o amor como árbitro nessa busca, amor este que não violenta a si próprio e tão pouco exclui o próximo. O amor tem sido visto pelos proprietários do Sagrado como atitude dos fracos, dos sem fé e dos sem doutrina. Não importa o que falam sobre o amor, pois só demonstra a total falta desse sentimento em seus corações.



Bem, na verdade sabemos dessa lição em verso em prosa, mas não custa lembrar um trecho da velha canção que diz: “[...] a lição já sabemos de cor, só nos resta aprender”. Partamos com confiança e humildade ao encontro do Sagrado, pois Ele está pronto a se revelar aos que o buscam de todo o coração. Examinemos as Escrituras Sagradas com sabedoria e verdade.


*Reverendo Arthur Cavalcante é Reitor da Paróquia da Santíssima Trindade


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