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Dia Internacional da Mulher: qual a nossa identificação nessa caminhada?


08 de março Dia Internacional da Mulher: qual a nossa identificação nessa caminhada?


*Por Ilcélia Soares        



Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.


          Livro de Lamentações capítulo 3, versículo 21




Ilcélia SoaresCelebramos hoje o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, dia marcado por fatos históricos e por vários registros sobre sua origem americana e/ou européia tendo como marca comum o que simboliza as lutas, as manifestações e as reivindicações de diversas mulheres ao longo da história por uma sociedade mais justa e igualitária.



Geralmente essa data é vinculada ao massacre das operárias de uma fábrica de tecido na cidade de Nova York em 08 de março de 1857, onde foram trancadas e queimadas vivas aproximadamente 130 mulheres trabalhadoras porque tiveram a coragem de realizar uma greve para reivindicarem melhores condições de trabalho, redução de carga horária diária de 16h para 10h e salários equiparados aos dos homens.  


Semelhantemente outros momentos históricos também apontam a relevância da caminhada das mulheres marcada pela capacidade delas de agregar e exercer uma liderança criativa, de organização e de luta diante da adversidade. Por exemplo, em Chicago, no dia 3 de maio de 1908 comemorou-se o primeiro “Woman’s Day” o qual se destinava às causas das trabalhadoras com o propósito de denunciar a exploração e a opressão das mulheres, defendendo ainda a igualdade dos sexos e a autonomia feminina. Do mesmo modo em Nova York, 27 de fevereiro de 1910, as mulheres se reuniram em defesa do sufrágio.


Em Copenhague na Dinamarca no mesmo ano de 1910, Clara Zetkin, militante do Partido Social Democrata Alemão, propôs uma resolução na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas para oficializar um dia internacional que representasse a luta das mulheres. Segundo a SOF - Sempreviva Organização Feminista, nessa decisão “não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março. Clara apenas menciona seguir o exemplo das socialistas americanas”. E a partir de então as comemorações passam a ter caráter oficial em toda a Europa. Em 1922 o Dia Internacional da Mulher é celebrado no dia 8 de março e somente em 1975 essa data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).


Clara Zetkin


Em virtude disso, hoje identificamos diversas conquistas: votamos e somos votadas, somos maioria nas universidades e em instituições religiosas, construímos conhecimentos, falamos em público, somos pesquisadoras, escritoras, artistas, reverendas, bispas, chefes de famílias, criamos os filhos e filhas partilhando sua educação, optamos por tê-los ou não, escolhemos com quem fazer sexo e compartilhar a vida, muito embora reconheçamos que ainda possuímos uma cotidiana caminhada a percorrer na defesa dos nossos direitos como, por exemplo, na luta de mulheres brancas, negras, índias que vivem e convivem com o HIV/AIDS, por políticas públicas de atendimento e enfrentamento à violência doméstica/de gênero, na luta contra a homofobia e ainda por salários dignos e justos.


Resgatar esta trajetória citada acima e mencionar todas essas conquistas tem como propósito neste texto de lembrar que tudo isso é resultado da intensa participação, ao longo da história, de milhares de mulheres na luta pelo voto, pela igualdade econômica e política; por dignidade e equidade. Mulheres que encarnaram e protagonizaram as dores e as alegrias de viver e ser mulher em defesa de seus e nossos direitos como afirma Piovesan (2003):


Os direitos humanos das mulheres são partes inalienáveis, integrais e indivisíveis dos direitos humanos universais. Não há direitos humanos sem a plena observância dos direitos das mulheres, ou seja, não há direitos humanos sem que metade da população mundial exerça, em igualdade de condições, os direitos mais fundamentais. Afinal, ‘sem as mulheres os direitos não são humanos’ (PIOVESAN, 2003, p.219).


Esse paradigma de direitos das mulheres como parte fundamental e propositiva dos Direitos Humanos Universais também possibilitou continente à discussão sobre a temática na Comunhão Anglicana. Nesse contexto religioso, as mulheres também tiveram seus momentos de lutas e reivindicações, entre outras a ordenação feminina.


A Igreja Episcopal Anglicana no Brasil teve uma postura de vanguarda em relação a outras Igrejas quando instituiu a ordenação feminina 25 anos atrás, reconhecendo, desta forma, a autonomia, a equidade e a capacidade das mulheres em ser e desempenhar diversos papéis políticos, religiosos e sociais na Igreja.


Reverenda Carmen Etel (Primeira Mulher Ordenada da Igreja Episcopal do Brasil)


Atualmente a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil comemora 25 anos de legítimo direito das mulheres de serem ordenadas às sagradas ordens de diáconas e presbíteras prosseguindo com desejo e propósito de seguir o exemplo das Províncias Anglicanas companheiras, ao sagrar bispas/episcopisas, tão breve quanto possível nas diferentes dioceses brasileiras.


Partindo do pressuposto que cada diocese no Brasil traz em suas realidades diferenças regionais, culturais e climáticas, ressaltamos que elas têm em comum a ordenação feminina no contexto de ser Igreja, comunidade cristã de fé construída por pessoas, marcada por uma produção histórica e afetada por uma teia política, social e econômica.


Mediante essa realidade as mulheres clérigas e leigas da IEAB, como mulheres do seu tempo, deparam-se com grandes desafios presentes na sociedade brasileira, tais como a feminização do HIV/AIDS e a violência doméstica e de gênero as quais se manifestam tão democraticamente que atingem as mulheres independentemente de religião/credo, classe social, de raça/etnia, de nível de escolaridade, orientação e/ou vivência sexual.


1ª Bispa Anglicana Barbara Harris


Na presença destes desafios somos convocadas a dar continuidade à defesa dos direitos das mulheres, à desconstrução dos papéis masculinos e femininos demarcados pela desigualdade de poder, à fomentação de políticas públicas para o enfrentamento dessas problemáticas assumindo que a igreja é um lugar de diálogos, encontros e manifestações da diaconia social.


Diante disso as desigualdades sociais, culturais e econômicas, as dificuldades de acesso a serviços de saúde, a persistência em padrões culturais e religiosos que interferem no uso de preservativo, são fatores que têm contribuído para a feminização do HIV/AIDS e sua relação com a violência doméstica e de gênero.


Portanto, a igreja tem a necessidade de identificar a estreita relação entre a violência doméstica/de gênero e a feminização do HIV/AIDS para repensar sua práxis e deve compreender que essa estreita relação é uma conexão dinâmica que tem sua manutenção alimentada pelo sentimento de medo, pelo estado emocional de baixa auto-estima, pela cultura do silêncio e dificuldade de negociar o uso do preservativo e pela concepção de amor romântico que suporta tudo e que é para sempre, fomentada também por alguns discursos religiosos.


Então a igreja lança o convite a todos e todas: trazer à memória algo que nos dê esperança em 100 anos de luta e 25 de ordenação feminina, acolhendo as pessoas que vivem, convivem com HIV/AIDS e sofrem violência doméstica/de gênero, firmando uma cultura de paz quando possibilita a prevenção, a intervenção e a ruptura dessas problemáticas por meio de: fortalecer a organização de grupos de mulheres; facilitar o acesso à rede de apoio social e de proteção; promover grupos de discussão para homens sobre as temáticas.


 


*Ilcélia Alves Soares - Especialista em violência doméstica, Mestre em Psicologia Clínica e ativista em HIV/AIDS pela ONG Espaço Vida - EVida. Leiga da Diocese Anglicana do Recife


 


Referências


 


PIOVESAN, F. Temas de Direitos Humanos. São Paulo: Limonad, 2003.


SOF – Sempreviva Organização Feminista. Acesso em: 04 de março de 2010. Disponível em: www.sof.org.br/inst_area_atua_fem_texto_8março.then.


BÍBLIA.  São Paulo: Ed. Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.