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Dia da Ascensão: Indo Além da Contemplação para Exercer a Missão de Povo de Deus


Dia da Ascensão: Indo Além da Contemplação para Exercer a Missão de Povo de Deus


Textos Bíblicos: Salmo 47; 2ª Reis 2:1-15; Atos dos Apóstolos 1:1-14; Lucas 24:49-53


 *Reverendo Arthur Cavalcante


Até onde sabemos, nenhuma personalidade da religião neolítica da Grã-Bretanha fez alguma jornada missionária até o Egito para tentar converter os faraós, e nenhum oficiante de Isis partiu do Egito para tentar converter os sacerdotes dos zigurates na Babilônia. Mas essa tradição de religiões nativas e locais aos poucos vai morrendo ou sendo absorvida pelas religiões missionárias [...] O ATLAS DAS RELIGIÕES- página 81 Publifolha-Joanne O’Brien e Martin Palmer- São Paulo-2008


 Introdução


Reverendo Arthur CavalcanteO Dia da Ascensão é comemorado pela Igreja desde o seu surgimento. Por muito tempo, os cristãos da antiguidade iam até o Monte das Oliveiras para festejar esse dia glorioso.  Na verdade, nos quatro primeiros séculos a Ascensão era comemorada juntamente com o Dia de Pentecostes formando uma só Festa. Após 400 anos, há o desmembramento da Festa, reservando a comemoração do Dia da Ascensão após quarenta dias da Páscoa e dez dias depois o Dia de Pentecostes. Parece-nos que os antigos crentes apoiaram-se na literalidade dos 40 dias de Atos dos Apóstolos capítulo 1, versículo 3.


O Livro de Atos dos Apóstolos e o Terceiro Evangelho são de autoria de São Lucas. Estudiosos apontam que tanto o Evangelho de Lucas como o Livro de Atos dos Apóstolos formavam uma só obra literária. Depois de alguns anos ocorre a separação da obra, formando dois livros.


Ascensão Giotto


Texto de Atos dos Apóstolos


Lucas direciona sua obra a uma pessoa chamada Teófilo, nome proposital, pois significa “Amigo de Deus”. O Livro de Atos dos Apóstolos não pretende ser a princípio um livro histórico onde as datas, os locais e as personagens são descritos precisamente. O Livro de Atos dos Apóstolos procura trazer o testemunho das primeiras comunidades seguidoras de Jesus de Nazaré. Enquanto o Evangelho de Lucas nos fala da práxis de Jesus, o Livro dos Atos dos Apóstolos nos descreve a práxis das primeiras comunidades.


O que de fato devemos aprender com essa passagem da Ascensão? O que ela nos deseja ensinar através desse texto dos Atos dos Apóstolos? O que ela comunica a nossa fé?


De início percebemos que a Ascensão não significa que Jesus abandonou seus discípulos à própria sorte. Na verdade, sua subida aos céus significou a vinda do Espírito Santo que trás a força para testemunhar do próprio Jesus (vers.8). Essa força não terá limites físicos para agir, pois ela estará com todos os seus discípulos onde quer que estejam.  A mensagem de Jesus de Nazaré estava viva nas vidas dos crentes. 


Parece-nos também que o trecho de Atos dos Apóstolos nos aponta para um universalismo da mensagem de Cristo. O início se dá em Jerusalém, mas estende suas fronteiras para o mundo a fora, “[...] em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da terra”.  O testemunho da Ressurreição deverá ser levado para outras terras, além da Terra Sagrada. O Cristianismo não é a primeira religião que sai do seu lugar para se expandir. Na verdade ele recebe essa herança do próprio Judaísmo. Muito antes mesmo, o Budismo se expandiu para outras terras na história das religiões abrindo outros precedentes para as religiões missionárias.


Com a Ascensão a Igreja se liberta para levar a mensagem das Boas Novas de Jesus Cristo a culturas diferentes em outros lugares jamais imaginados. O Livro de Atos dos Apóstolos nos conta um pouco desse desprendimento e da abertura de levar a mensagem a povos não judeus. 


Ícone da Ascensão


          A Ascensão reforça a formação da Igreja como koinonia ou comunidade onde o crente vive para Deus e se relaciona com outros fiéis.


Os versículos 13 e 14 nos apontam o núcleo que vai dar origem a Igreja: os Apóstolos, um Grupo de Mulheres destacando-se Maria de Nazaré e os Irmãos de Jesus.


Quantos de nós já não ouvimos cristãos fervorosos pregando que a Igreja atual deveria se espelhar no cristianismo primitivo? Estamos por demais distanciados do modelo de Igreja daquela época, pois ele respondia as necessidades de seu tempo. Na verdade, não perseveramos em um modelo de Igreja, mas na “[...] doutrina dos Apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” Aliança Batismal LOC pág.166.


A idéia de ser uma Igreja Apostólica se refere no comprometimento com o testemunho dos Santos Apóstolos. Uma Igreja é Apostólica, segundo H.B.Swete (1835-1917), quando se vê fundada pelos Apóstolos, por aceitar os ensinos dos Apóstolos e por dar continuidade ao Ministério Apostólico. Apóstolo significa: alguém chamado por Cristo para pregar o Evangelho ou ainda, alguém que era testemunha do Cristo Ressuscitado ou ainda, alguém que recebeu a revelação da Ressurreição de Cristo. A Igreja é Apostólica, pois é testemunha do Cristo Ressuscitado no mundo. Com o passar dos tempos se ressaltou muito mais o lado institucional da Igreja deixando para trás a idéia de comunidade dos fiéis onde se vive e prega a mensagem do Evangelho. Não podemos confundir o principal com o secundário.


Considerações Finais


Nossa missão é testemunhar a mensagem do Cristo Ressuscitado, assim como foi chamado aquele pequeno e frágil grupo de discípulos em Jerusalém. Fomos alertados para não cairmos no erro de apenas contemplar a Ascensão de Cristo aos céus, mas para continuarmos a vida com a mensagem de Jesus dentro da gente. Não podemos restringir a vida do Evangelho formando um clube fechado aos membros. É preciso abrir para todas as pessoas, ou melhor, ir ao encontro de todas as pessoas. Que Deus nos abençoe nessa missão nos apoderando da mesma força ofertada por Jesus aos seus discípulos. Amém.


         * Reverendo Arthur Cavalcante é reitor da Paróquia da Santíssima Trindade. Email arthur@trindade.org