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Trindade Entrevista Leonardo Boff


Entrevista de Leonardo Boff ao Site Trindade


Jornalista Dermi Azevedo O jornalista e membro da Paróquia da Santíssima Trindade, Dermi Azevedo, realizou uma entrevista exclusiva com Leonardo Boff para o site Trindade.






Entre os dias 24 e 25 de setembro a CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) realizará o lançamento nacional da Campanha Primavera Para a Vida na Igreja da Trindade, em São Paulo. Na noite de abertura (24) haverá uma palestra de Leonardo Boff sobre as temáticas de Justiça Ambiental e Direitos.


Leonardo Boff


1. O que significa, no aspecto de um ecumenismo militante, a decisão da CESE de realizar, em 2010, em São Paulo, pela primeira vez fora de Salvador/BA, o lançamento de sua Campanha Primavera Para a Vida deste ano? 


LB: Está na lógica da CESE fazer o evento fora da Bahia, porque seu raio de atuação não se restringe à Bahia. É justo que ela se faça presente e celebre junto aos grupos que ajudou a se constituir e  a levar seus projetos avante, grupos que estão em todo o Brasil. São Paulo é um bom lugar, pois para lá confluem quase todas as coisas de nosso pais. 


 


2. Como você toma o pulso, por assim dizer, da atuação das Igrejas Cristãs na luta pelo Desenvolvimento Sustentável, pela Democracia e pelos Direitos Humanos, neste início do século 21? 


LB: As esquerdas entraram em crise no mundo inteiro com a derrocada do socialismo estatal do bloco soviético. Quem não possuía um transfundo de convicção que fosse além das crises, se afundou e perdeu sentido de luta e de compromisso de mudanças.


Queda do Muro de Berlim


Os cristãos foram uma exceção. Para além das crises, seja do sistema socialista e também do capitalista e mesmo da Igreja-instituição com sua volta à grande disciplina e a um curso mais conservador, agravado pela questão dos padres pedófilos, a maioria dos cristãos se manteve fiel a seus ideais de empenho pelos direitos a partir dos mais vulneráveis, por um desenvolvimento centrado no ser humano, por uma natureza sustentável para que continue a nos dar tudo o que precisamos. Esses ideais transcendem as conjunturas dos tempos, pois estão ancorados numa mística do Reino na história que está em permanente luta contra o anti-Reino, com recuos e avanços mas com a certeza de estar no lado certo e que, no fim, a boa-vontade  e os bens do Reino vão triunfar. O fundamento está em Deus, em Cristo, nos Evangelhos, na libertação dos pobres e não em alguma ideologia que pode se evaporar com as derrotas históricas. Esse testemunho os cristãos estão dando e deram no meio das tormentas dos últimos anos. Não buscaram um porto seguro, mas foram ao alto mar, pedindo a Deus que não os libertassem das ondas perigosas mas lhes dessem coragem e força para superá-las. 


3. Que significado específico pode ser atribuído à atuação compartilhada e isonômica, da Igreja Católica Apostólica Romana, por meio da CNBB, nessa caminhada  conjunta?


LB: A Igreja Católica no Brasil e a CNBB se contam entre as Igrejas mais abertas e criativas do universo cristão. Em sua grande maioria, os bispos e padres se colocaram do lado dos pobres, contra as truculências sociais e políticas. A Igreja Católica, embora em termos populacionais seja hegemônica, nunca fez disso um privilégio. Ao contrário, procurou associar-se aos trabalhos de outras Igrejas, especialmente nas questões sociais, na questão da Terra, dos indígenas,dos negros, das mulheres, da saúde das crianças. Eu tenho orgulho desta Igreja que não deixa o sonho de Jesus ficar uma mera retórica eclesiástica, mas mesmo contando com as incompreensões de irmãos de fé, daqui e do Vaticano, continua fiel ao chamado do Nazareno que ainda fascina multidões por sua mensagem generosa que honra o ser humano e faz honra a Deus.


4. Que sugestões você apresenta e que propostas você faz para aprofundar esse compromisso dos cristãos e das Igrejas com essa luta?


LB: Eu diria duas coisas. A primeira é a importância de crescer em consciência da real situação da Terra, da vida e da Humanidade e de nossa responsabilidade pelo futuro que não está garantido. Sabemos que Deus assegura o fim bom mas não sabemos como chegar lá. Então devemos ser filhos e filhas de nosso tempo, conscientes, críticos, atentos e responsáveis. E a segunda proposta é não deixar que nosso sonho, que nossa utopia continuem sonho e utopia, mas tentar colocar gestos, atos, práticas que o antecipam e que mostram que outro mundo não é apenas possível mas é necessário. Então se trata de práticas e não de prédicas, com a consciência de que o bem que fazemos, por menor que seja, não fica restrito a nós mesmos, senão que se alastra e entra na rede das energias universais da Terra, do Universo e do Espírito Criador e vêm reforçar a grande onda, o tsunami do bem que vai mudar a consciência e a partir da consciência a face da Terra. Precisamos crer na semente, pois, como diziam as CEBs em Porto Velho no ano passado: "Deus não nos deu árvores, mas sementes; e as sementes contêm a árvore, as flores, os frutos, a sombra e a oxigenação da atmosfera".


Intereclesial das CEBs


 5. Como manter viva a esperança e a utopia de que um novo mundo é possível?


LB: É uma questão de fé. E fé aqui deve ser tomada como uma aposta, aposta de que o princípio de vida é mais forte que o princípio de morte, de que o Espírito Criador nunca abandona sua criação, a acompanha, reforça os dinamismos bons e nos mantêm na coragem de crer, esperar e de lutar para que o novo ainda frágil possa nascer e fazer o seu curso na história que é nossa mas também de Deus.