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Entrevista da UMEAB com Yury Orozco da Católicas Pelo Direito de Decidir


Em entrevista a União de Mulheres Anglicanas do Brasil (UMEAB-Paróquia Trindade), Yury Orozco fala sobre as Católicas Pelo Direito de Decidir, uma importante e atuante organização que defende os direitos da mulher na sociedade/religião. Também relata um pouco sobre o lançamento do livro "Religiões em Diálogo: Violência contra as Mulheres" e expectativas sobre o movimento.



Yury Orozco


Yury Puello Orozco, colombiana e residente em São Paulo é integrante da equipe da Coordenação das Católicas pelo Direito de Decidir. É doutora em Ciências da Religião pela PUC de São Paulo. Coordena o projeto "Diálogos Inter-religiosos no Brasil sobre a Violência contra as Mulheres". É de sua autoria o livro "Mulheres, AIDS e Religião" pela CDD.


1- Fale-nos um pouco sobre as Católicas pelo Direito de Decidir (CDD).


Católicas pelo Direito de Decidir, fundada no Brasil em 8 de março de 1993, é uma organização não-governamental feminista. Busca a justiça social, o diálogo inter-religioso e a mudança dos padrões culturais e religiosos que cerceiam a autonomia e a liberdade das mulheres, especialmente no exercício da sexualidade e da reprodução.


Católicas pelo Direito de Decidir respeita a diversidade como necessária à realização da liberdade e da justiça. Afirma o valor de uma sociedade plural, apoiando a laicidade do Estado como condição para a realização da democracia.


Católicas pelo Direito de Decidir trabalha em defesa da igualdade nas relações de gênero, da plena cidadania e dos direitos humanos das mulheres (notadamente os direitos sexuais e os direitos reprodutivos), reconhecendo nelas autoridade moral e capacidade ética para tomar decisões sobre todos os campos de suas vidas.


Atuamos em parceria com diversos movimentos sociais, especialmente os movimentos de mulheres e LGBTTI, e integramos redes nacionais e regionais.  Participamos de diversas campanhas no país: pela legalização do aborto, de prevenção da aids, por uma Convenção Interamericana pelos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, contra a homofobia, pelo fim da violência contra as mulheres e pela laicidade do Estado.


O foco central da ação e da análise de Católica pelo Direito de Decidir é o lugar da religião na sociedade e o papel que exerce na vida das mulheres buscando promover um diálogo consistente e profundo com os mais diversos setores da sociedade.


2- Soubemos que as CDD conquistaram uma nova sede em São Paulo. Quais os novos desafios de trabalho do grupo?


Continuamos trabalhando na defesa dos direitos humanos das mulheres, especialmente os direitos sexuais e os direitos reprodutivos. O desafio para toda a sociedade é combater a ação dos grupos conservadores que se opõem aos direitos sexuais e reprodutivos, interferindo na aprovação de leis e na implementação de políticas públicas neste âmbito, o que viola os direitos humanos das mulheres. É um absurdo que alguns destes grupos questionem a Lei Maria da Penha, por exemplo, que é umas das leis mais avançadas para acabar com este grande mal da humanidade.


3- Vocês lançaram um novo livro intitulado "Religiões em Diálogo: Violência contra as Mulheres" da qual o Reitor da Paróquia da Trindade e uma leiga e psicóloga anglicana fizeram parte contribuindo com um texto. Porque falar de violência contra a mulher no contexto religioso?


O diálogo proposto entre diversas religiões visa entender e aprofundar em que medida existe um pensamento religioso que justifica a violência contra as mulheres. Interessa-nos mostrar a existência de uma matriz e uma linguagem religiosas que contribuem e mantêm a situação de violência.


Mara Luz representando a Paróquia no Lançamento


São idéias pautadas, por exemplo, na valorização do “sacrifício”, da “doação” e da “sublimação” e que reforçam a dominação sobre as mulheres, contribuindo para a construção de uma concepção de mulher que as leva a manter-se em uma situação de desigualdade e  violência.


Reverendo Arthur Cavalcante Lançamento do Livro Religiões em Diálogo


Acreditamos que  as religiões podem ajudar as pessoas a entenderem a violência de gênero, incluindo-se a violência sexual, como algo inaceitável para a sociedade do ponto de vista  ético e religioso.  Frente a essa realidade, propomos colaborar para tornar pública a face das religiões que respeita as diferenças e é favorável às mulheres, buscando mostrar que a violência contra a mulher não somente é condenável, mas deve ser erradicada através de esforço coletivo e fraternal.


4- O que destacaria nessa nova produção que você organizou?


O principal destaque foi conseguir que lideranças religiosas de diferentes denominações falassem sobre este problema de uma maneira diferente, ou seja, mostrando, a partir da sua confissão religiosa, as doutrinas, símbolos e discursos que perpetuam a situação de violência. Fazer um trabalho de desconstrução da sua teologia foi uma proposta desafiadora para @s autor@s, mas foi, por outro lado, extremamente importante, já que partir deste trabalho as religiões e suas lideranças podem buscar caminhos mais eficazes para construir sua ação pastoral e seus discursos religiosos de uma maneira mais positiva, informada e transformadora da realidade de violência que afeta às mulheres.


5- Como está sendo a receptividade do livro em São Paulo e no Brasil?


Estamos recebendo muitos pedidos do Brasil inteiro. Consideramos que este livro é uma novidade, porque justamente as religiões têm guardado silencio sobre muitos dos problemas das mulheres e estava na hora de falarem e se posicionarem publicamente.


Religiões em Diálogo acessível na Biblioteca Paroquial


Este livro também se constitui em um desafio para que outras lideranças religiosas mudem seu discurso, conheçam a realidade das mulheres e falem de uma forma adequada dos seus problemas. É um desafio para que não continuem perpetuando a dominação e submissão das mulheres, ao contrario é um chamado para que levem uma voz positiva por parte das religiões: Voz de Consolo, Misericórdia, em fim prática e discurso de Vida.


Saiba mais sobre Religiões em Diálogo