Skip to main content

NÃO A NORDESTINOFOBIA!


NÃO A NORDESTINOFOBIA!


 Jornalista Dermi Azevedo


Dermi Azevedo A rejeição às pessoas oriundas de outras regiões e países simplesmente pelo fato de seu constante ir e vir, é um dos traços mais vergonhosos entre tantos outros, tanto no Brasil, quanto noutros países, como é o caso da França e da Itália. Os fatos cotidianos de preconceito e discriminação ultrapassam as fronteiras brasileiras. Na Europa, um dos berços do que seriam chamados depois de Direitos Humanos, os ciganos são tratados como párias e a chamada limpeza social é praticada, paradoxalmente, em nome da civilização ocidental e cristã. No Brasil, a realidade predominante é de uma democracia inter-étnica puramente de fachada.


Apesar de tantas leis anti-discriminatórias, a prática indica um total desrespeito e impunidade nesse e em outros aspectos. A Lei Maria da Penha, que coíbe a violência contra as mulheres, chegou a ser desrespeitada por um magistrado, enquanto os noticiários apresentam diariamente o triste espetáculo de vidas ceifadas precocemente pela violência. A homofobia alastra-se, no contexto geral de violência simbólica e de banalização do mal como diria Hannah Arendt.  O anti-nordestinismo tem raízes profundas que têm a ver com a perda da hegemonia econômica do nordeste, que já constituiu a mais sólida economia nacional, perdida, depois, para outros pólos econômicos, entre os quais a região sudeste do país. O regime das capitanias hereditárias acabou gerando toda uma legião de latifundiários entre os quais muitos senhores de escravos. Muitos dos “democratas” de hoje tiveram antecessores escravagistas. As levas crescentes de migrantes nordestinos para o sudeste, motivaram o ódio dos moradores do sudeste principalmente, sobre o argumento de que os nordestinos “tomaram os seu lugares” na cruel competição pelo acesso ao mercado de trabalho. Os nordestinos, tratados como bodes expiatórios, passaram a ser considerados como inimigos internos. Diante dessa caracterização mentirosa, as lideranças nordestinas em São Paulo, no Rio de Janeiro, nas capitais do Sul e até mesmo no Nordeste passaram a ser hostilizadas de um modo cruel e desumano.


nordestinofobia


Essa rejeição ao povo nordestino acontece de várias formas: o interlocutor “bonzinho” trata o homem e a mulher nordestinos como se eles fossem recém saídos do jardim de infância. “Vocês são tão bonzinhos”, sic; “coitadinhos”. Vocês poderiam ter ficado nas suas terras e não ter vindo passar por tantas dificuldades. Já os nordestinofóbicos radicais praticam todo tipo de violência simbólica e real. Essa violência manifesta-se, por exemplo, na linguagem cotidiana, sendo incluída, por exemplo, na gíria costumeira e popular. O tijolo com quatro buracos é chamado de “tijolo baiano”, isto porque “não tem miolo”. Outro dia tomei um taxi e a primeira pergunta que o motorista me fez foi “de onde você é?”. Respondi: “sou brasileiro do Rio grande do Norte. E o senhor de onde veio?”. E ele me respondeu: “vim do Paraná”. Eu então repliquei: “o senhor está vendo como nosso país é bonito e diversificado? Ocupa um imenso território habitado por diversas etnias e povos, mantendo a mesma unidade na diversidade”. Então completei: “o senhor veja o exemplo de São Paulo, apesar de ser uma das maiores cidades do mundo, continua a receber de braços abertos novos migrantes”. Finalmente sugeri ao taxista, que lesse a Constituição Brasileira e pensasse bem nos compromissos democráticos e republicanos nela contidos. Legalmente, a prática do racismo, da discriminação e do preconceito é considerada como um dos mais graves crimes na nossa legislação.


Só existe uma maneira de combater e acabar com a nordestinofobia: seguimentos mais dinâmicos da sociedade civil devem priorizar seus esforços no sentido de denunciar os casos de que tem conhecimento e de lutar contra a impunidade de seus autores. Outro imenso desafio cabe aos próprios nordestinos: primeiro é de adotarem uma postura crítica de auto-estima, de afirmação da sua própria personalidade, em todos os espaços possíveis: igrejas, sindicatos, movimentos sindicais, partidos políticos, entre outros. O segundo é o de unir esforços com outros movimentos sociais, de forma competente e efetiva, para exigir a aplicação das leis nesse e em outros casos. É também de se esperar uma postura proativa da presidente Dilma Rousseff. A região do nordeste votou em peso na Dilma justamente pela esperança gerada pelo governo Lula no sentido de consolidar os programas sociais da administração federal.


Não podemos, porém, ter a ilusão de que o Brasil se transformará numa democracia racial e interativa. A mesma discriminação que atinge os nordestinos em são Paulo é aplicada também contra os excluídos de forma geral (favelados, sem teto, sem terra. O próprio peso demográfico da nordestinidade em São Paulo permitirá que essa onda seja contida. É o que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a população hispânica começa a se tornar majoritária, provocando mudanças no comportamento típico dos norte americanos com relação a etnias e povos diferentes.


Enfim, nenhuma pessoa pode dizer-se consciente ou politicamente correta se não enfrentar e vencer as atitudes típicas dos preconceituosos. Cristianismo e discriminação são antagônicos em gênero, número e grau.


* Dermi Azevedo é jornalista, cientísta político, articulador da Desmond Tutu e membro da Paróquia da Santíssima Trindade. Email: dermi508@gmail.com